segunda-feira, 7 de junho de 2010

Saúde é requisito para desenvolvimento econômico, diz especialista

 Coordenador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz e professor da Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da UFRJ, Carlos Morel já dirigiu o programa de pesquisa em doenças tropicais da Organização Mundial da Saúde, e chama atenção para o elo entre saúde e desenvolvimento econômico. Ele cita um relatório da OMS que aponta que a multiplicação de investimentos em saúde no mundo traria ganhos de US$ 360 bilhões por ano...




Fonte: O Globo
O que são doenças negligenciadas?
O termo começou a ser conhecido por volta de 2000, graças a dois relatórios, um dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), outro da OMS. Eles propuseram as seguintes nomenclaturas: doenças globais ou tipo 1, que atingiriam a todos, inclusive os países ricos; doenças negligenciadas ou tipo 2, que, embora possam ocorrer no mundo todo, são mais frequentes ou graves nos países pobres; e doenças mais negligenciadas ou tipo 3, que só afetam os mais pobres, como leishmaniose, mal de Chagas... Pelo fato de as negligenciadas e mais negligenciadas atingirem países em que nem governo nem população têm dinheiro para comprar os remédios, a indústria farmacêutica não investe na pesquisa e na produção deles (a OMS chama de "Fosso 10/90" o fato de que menos de 10% dos fundos mundiais para pesquisa em saúde são para os problemas de saúde que são mais relevantes aos países em desenvolvimento e que representam 90% das doenças no mundo).
Quais os efeitos para os países com doenças negligenciadas?
Até dez anos atrás, havia simplesmente falta de perspectiva, no mundo, de surgimento de tratamento. Mas, por volta de 2001, começaram a surgir o que hoje chamamos de "parcerias para o desenvolvimento de produtos". Uma das primeiras foi criada em 2003 pelos MSF, com dinheiro do Nobel da Paz ganho por eles: a Drugs for Neglected Diseases Initiatives (DNDI), com participação de vários países. O Brasil participa, com a Fiocruz e o Instituto Pasteur.
Como são essas parcerias?
Governos e entidades filantrópicas entram com a verba, e as empresas farmacêuticas, com o know-how. E está dando certo. Os remédios estão começando a vir. A DNDI, por exemplo, desenvolveu um antimalárico em conjunto com a Fiocruz.
Além da falta de investimento da indústria, qual o peso das condições de vida para o agravamento dessas doenças?
Pobreza é um determinante social. Mas há três tipos de falha interferindo no processo: as falhas de ciência, as de mercado e as de sistema de saúde pública. As falhas de ciência ocorre quando a ciência ainda não descobriu cura ou vacina para a doença; se descobrissem uma vacina para leishmaniose tão potente quanto a da varíola, mesmo pessoas pobres ficariam imunes. A outra falha é a de mercado: existe o remédio, mas é caro, e às vezes a indústria não produz em larga escala se quem precisa não tem condições de comprar. Então, o Estado tem de distribuir. Já a falha de saúde pública é quando existe o remédio, não é caro, mas o sistema público não consegue distribuir a todos, por problemas de gestão ou por corrupção, por exemplo. É o caso de vacinas na África, ou da vacina contra pólio na Índia. No caso do Brasil, em relação a muitas doenças, como tuberculose e hanseníase, há as três falhas, é tudo junto.
Qual o impacto da existência de doenças em um país para o desenvolvimento dele?
Aquele relatório da OMS trata disso. A maioria dos economistas clássicos diz que a saúde de uma população melhora quando a economia melhora. Mas o que a OMS aponta é que a saúde não é só consequência do desenvolvimento: é um requisito para ele. Com saúde, vive-se mais, falta-se menos ao trabalho, ao estudo, então produz-se mais, e a economia ganha. Esse relatório mede isso. O dinheiro que seria gasto com doença pode ir para educação. Uma pessoa com malária fica pelo menos 15 dias de cama; já li que uma menina, no Norte do país, tinha sido reprovada na escola de tanto que faltava, por causa da malária. No Brasil, está havendo um movimento interessante: pesquisas sobre o conceito de "complexo industrial da saúde". Querem mostrar ao setor privado que saúde pode ser uma chance de negócio. Na balança comercial brasileira, o déficit do setor saúde é US$ 7 bilhões/ano. A gente importa demais, há aí demanda por novos negócios. O Brasil está querendo se desenvolver, mas esbarra na falta de muita coisa, como mão-de-obra qualificada para a área. Além da falta da própria saúde para a população.
Alessandra Duarte, O Globo

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