Ações de ampliação da cadeia industrial em um estado são bem sucedidas quando geram valor para as empresas que se inserem na cadeia, ou seja, há uma elevação no patamar produtivo, seja na qualidade, gestão, inovação, entre outros. Os programas de qualificação de fornecedores (PQF) são um bom exemplo. O objetivo fundamental é capacitar a indústria local a fornecer produtos conforme as indústrias âncora. Dentre os mais conhecidos está o PROMINP, mas outras iniciativas de enorme sucesso demonstraram que a indústria local, se preparada com o devido apoio, podem gerar renda, emprego e maior diversificação da cadeia. Cabe destacar o papel do IEL e SENAI, conforme a notícia vinculada no Valor Econômico.
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Fonte: Valor Econômico
Os programas de qualificação de fornecedores (PQFs) promovidos por grandes empresas vêm se multiplicando no país e apresentando forte impacto no fortalecimento de cadeias produtivas e no desenvolvimento de economias locais e regionais, com expressiva geração de emprego e renda em vários Estados. No Espírito Santo, por exemplo, que mantém o mais antigo PQF com funcionamento ininterrupto (opera desde 1997), a indústria metal-mecânica capixaba ampliou de 1% para 40% sua participação nas aquisições de bens e serviços das grandes companhias do Estado. As compradoras simplesmente deixaram de trazer de longe aquilo que podiam conseguir, com a qualidade necessária, dentro do Estado.
Nos Estados e nas cadeias produtivas que vêm se tornando polo de atração de grandes investimentos, os impactos são ainda maiores. No setor de petróleo, onde Petrobras e governo federal desenvolvem o maior programa que o país já teve para a capacitação de fornecedores, os resultados são impressionantes. Iniciado em 2003, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional do Petróleo e Gás Natural (Prominp) conseguiu elevar de 57% para 75% a participação das empresas brasileiras no total de compras de bens e serviços do setor. O aumento significa US$ 15,8 bilhões em encomendas que deixaram de ser feitas no exterior, entre 2003 e 2009, gerando, segundo estimativas da Petrobras, 690 mil postos de trabalho no país.
Maragojipe, no Recôncavo Baiano, é um bom exemplo de como esses programas funcionam. Quando, em 2003, o consórcio Rio Paraguaçu instalou-se no município para construir uma plataforma de petróleo para a Petrobras, recrutou localmente menos de um quarto dos 4.200 trabalhadores contratados porque a cidade não dispunha de mão de obra qualificada. "Chegavam ônibus e mais ônibus com pessoal de outros Estados", lembra Silvio Santana Santos, prefeito desse município de 43 mil habitantes a 130 quilômetros de Salvador. A situação motivou vários protestos e até uma greve. Hoje, graças aos cursos organizados pelo Prominp, metade dos funcionários do consórcio é formada por gente da região. Esse percentual deve crescer com o novo centro de capacitação, com capacidade para 2.400 alunos, que está sendo construído para atender também às demandas do estaleiro que deve se instalar em Maragojipe este ano.
Paralelamente, o consórcio e as empresas que com ele chegaram ao município começam a organizar, em parceria com Sebrae e governo do Estado, cursos de qualificação em gestão para desenvolver as empresas locais com potencial para ser suas fornecedoras. O processo teve início com as cooperativas agrícolas que vendem alimentos para os trabalhadores da companhia, mas, com a chegada do estaleiro, se estenderá a micro e pequenas empresas produtoras de aço e outros insumos região.
As primeiras iniciativas de grandes companhias para a qualificação de fornecedores surgiram na década de 90, impulsionadas pela abertura comercial que tornou urgente aumentar a competitividade da indústria nacional. Num contexto de terceirização crescente, ser eficiente dependia de desenvolver toda a cadeia. Os primeiros programas foram desenvolvidos pelo Sebrae em 1992 para atender as necessidades da Autolatina, Rhodia e São Paulo Alpargatas.
Foi no Espírito Santo, porém, que surgiu o primeiro programa de qualificação que reuniu grandes empresas de diferentes setores. A iniciativa foi da Aracruz, hoje Fibria. A empresa, que havia terceirizado há pouco várias etapas do processo produtivo para se concentrar na produção de celulose, precisava tirar a ISO 9001 para atender à exigência de seus clientes externos. "Ficou claro que só seria possível obter a certificação se os fornecedores também adotassem um sistema de controle de qualidade capaz de assegurar bons insumos e serviços de forma contínua. Para isso, eles precisavam de ajuda", explica o gerente de suprimentos da Fibria, Paulo Edson Vieira. A Aracruz encomendou então o programa ao Instituto Euvaldo Lodi (IEL), vinculado à Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes).
Formada a primeira turma, outras onze grandes companhias - entre as quais Petrobras, Vale, CST e Belgo Mineira - aderiram, criando o Programa Integrado de Desenvolvimento e Qualificação de Fornecedores (Prodfor), que incluía todos os quesitos da ISO 9001 acrescidos dos relacionados à saúde e segurança no trabalho. Desde 1998, o Prodfor reúne 480 empresas, tendo certificado 244 delas.
Desde então, iniciativas semelhantes surgiram em vários Estados. Em parceria com instituições como o Sebrae, IEL, federações de indústrias e governos estaduais ou federal, grandes empresas de um mesmo setor ou de vários, pouco a pouco, passaram a promover ações sistemáticas para qualificar seus fornecedores.
Todos esses programas partem da identificação das necessidades de um ou vários grandes compradores e da análise das deficiências e potenciais de pequenos provedores locais indicados pelas empresas âncoras. A partir daí, é traçado e implementado um plano de qualificação. Além de cursos, seminários e encontros de negócios, a maioria dos PQFs inclui consultorias que ajudam as empresas a implementar sistemas de gestão.
O foco inicial era a capacitação em gestão da qualidade e a promoção de seminários e rodadas de negócios para que os fornecedores entendessem melhor as necessidades das companhias. Aos poucos, vários programas passaram a incluir capacitação em gestão ambiental, de saúde e segurança no trabalho, tributária e fiscal e, inclusive, em responsabilidade social. Alguns possibilitam certificações amplamente reconhecidas e até oferecem instrumentos para facilitar o financiamento bancário às empresas certificadas.
Em Goiás, esses programas se desenvolveram a partir de 1999, desenhados sob medida para as necessidades específicas de alguns municípios ou setores. Graças aos investimentos feitos na qualificação de pequenas empresas, Estados como o Pará, Maranhão e Pernambuco vêm conseguindo acelerado crescimento da participação de empresas locais nas compras das grandes companhias. Segundo a Philips, uma das compradoras que é âncora da ação pernambucana, os fornecedores que iniciaram a qualificação há apenas seis meses já conseguiram duplicar suas vendas.
No Maranhão e no Pará, os PQFs surgiram há uma década, por iniciativa da Vale, que arregimentou outros grandes compradores. Os impactos sobre as economias desses Estados foi grande. No Maranhão, o volume mensal de vendas das empresas do Estado para a Vale e Alumar quintuplicou na última década, segundo dados da Secretaria da Indústria e Comércio do Estado. Graças à qualificação, a economia local abocanhou, nos últimos três anos, mais de um quarto dos R$ 5,2 bilhões que a Alumar investiu na duplicação de sua capacidade instalada.
"Isso trouxe geração de emprego, renda e um grande desenvolvimento para a indústria de base do Estado, sobretudo de empresas de fabricação e montagem, construção civil e engenharia de projetos", explica o coordenador do programa, José Oscar de Melo Pereira, da Secretaria de Indústria e Comércio do Maranhão (Sinc).
A Cristal Engenharia é um bom exemplo dos avanços propiciados pelo Procem no Maranhão. Desde 2003, quando aderiu ao programa, a empresa passou de 45 para 146 funcionários e quase quadruplicou seu faturamento. "Depois da certificação, ampliamos muito nossas vendas para a Vale e a Alumar porque diversificamos e melhoramos a qualidade dos serviços prestados. Com isso, participaremos agora da primeira licitação da Petrobras", conta Luiz Carlos Martins, sócio da empresa. "Graças à visão estratégica que adquirimos, estamos comprando equipamentos de terraplanagem e nos preparando para atender aos grandes projetos que virão para o Estado", acrescenta.
No Pará, onde as demandas da Vale vêm crescendo exponencialmente pela quase duplicação de sua capacidade instalada, os fornecedores locais só estão conseguindo beneficiar-se da expansão por causa dos programas de qualificação, nos quais a mineradora tem papel de destaque. Só nos últimos cinco anos, as aquisições da mineradora no mercado local cresceram 3,5 vezes.
Entre 2008 e 2009, graças à parceria entre Sebrae e IEL, os programas de qualificação de fornecedores se estenderam a praticamente todos os Estados do país, triplicando o número de grandes compradoras comprometidas com essas iniciativas. Como metade dessas compradoras - 77 empresas - ainda estão selecionando os fornecedores para participar de qualificações que devem começar neste ano, o impacto desse crescimento ainda está para ser avaliado.

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