terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Energia: Xadrez da década


Um dos desdobramentos da crise financeira internacional foi a destinação de US$ 500bilhões por parte do governo norte-americano para P&D em energias limpas. O governo de Obama estabeleceu a meta ambiciosa de substituir 20% das importações de petróleo por biocombustíveis. Na prática, isto equivale a dizer adeus ao petróleo do oriente médio. Algumas implicações deste cenário:
1- Como cerca de metade do petróleo utilizado nos EUA é oriundo da Venezuela, uma substituição agressiva por biocombustíveis representariam na prática, uma ganho relativo da importância da Venezuela. Com suas forças armadas espalhadas pelo mundo, os EUA não pode mostrar músculos a Hugo Chavez, mas em um futuro próximo, podem haver novos movimentos na região.

2- O investimento em P&D de biocombustíveis é de fato, mais do que uma ênfase em biocombustíveis. Ela também financiará investimentos em sequestro de carbono oriundo de termelétricas, um processo chamado por "clean coal". O Carvão é o maior responsável pelos gases de efeito estufa, e se possível o sequestro do carbono emitido pelas termelétricas e sua injeção no subsolo podem representar o "quid pro quo" da matriz energética atual.

3- Desde o início, a meta norteamericana é o etanol celulósico, uma geração à frente do etanol de cana de açúcar. Para nos americanos, só vale a pena o etanol se ele não concorrer com as lavouras de alimentos e se ele puder ser extraído de qualquer biomassa (no caso deles, gramíneas e cascas de árvores são as maiores "colheitas" agrícolas, que hoje não são aproveitados para quase nada). Neste ponto, a pesquisa do etanol levará o combustível a uma outra dimensão, muito mais flexível e de disponibilidade virtualmente ilimitada, que são exatamente os calcanhares de aquiles da cana de açúcar. Veja uma discussão sopre este tema.

Por fim, investimentos em P&D são arriscados e diversificados por natureza, uma série de rupturas podem surgir: células fotovoltáicas de alta capacidade, supercapacitores, baterias de alta carga, turbinas ultra-leves, regeneração de energia, co-geração de energia, entre outras. Aqueles países que se sobressairem nas pesquisas sobre estes temas serão, sem qualquer dúvida, os líderes da nova inústria.

Clique no título e veja a notícia na íntegra.
Fonte:  Correio Braziliense




A aritmética mais elementar do governo Barack Obama para superar a dependência dos EUA de fontes externas de petróleo já é um tiro de canhão na geopolítica mundial. A meta é chegar em 2022 com 20% da demanda por petróleo substituída por biocombustíveis, que hoje já abastecem 8% das necessidades da frota de transportes dos EUA.

Se o objetivo for parcialmente bem-sucedido, os países produtores de petróleo perderão boa parte de sua influência sobre a formação do preço do barril de petróleo em bases correntes. E, na projeção, estará selada a sorte da economia movida a carbono.

Com escala crescente de produção e demanda compulsória, conforme as metas de adição de etanol e biodiesel impostas pelo programa de energias renováveis nos EUA, os combustíveis alternativos e novas tecnologias deverão ganhar espaço ? como ganharam no Brasil, onde motores bicombustíveis estão em mais de 90% dos carros vendidos.

?A ideia em processo é muito simples?, diz uma análise do Gerson Lehman Group, empresa dos EUA que gerencia redes de pesquisas com atuação global, ?e vem sendo discutida há muitos anos no bastidor do Departamento de Energia (DOE)?. Trata-se de substituir, do total de petróleo importado, a fatia do Oriente Médio, que equivale a 20% das importações, por biocombustíveis produzidos nos EUA.

Tais cenários surgiram como plano de contingência contra o risco de quebra do fornecimento, como já ocorreu, devido à instabilidade política no mundo árabe. Hoje, esses cenários foram atualizados à luz da questão ambiental e da crise econômica, que colocou os EUA diante de uma encruzilhada: ou recicla sua economia, dando foco ao renascimento industrial, ou tenderá, inexoravelmente, a definhar.

O petróleo importado corresponde a 66% do consumo nos EUA. Metade vem da Venezuela ? incluída no rol de países hostis aos EUA devido às posições cada vez mais antiamericanas do governo de Hugo Chávez ?, México e Canadá, ambos aliados incondicionais.

A fatia de 20% é fornecida por países que dependem militarmente dos EUA, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Iraque, no qual os americanos entraram em guerra e cujo governo civil tutelam. Combatem no Afeganistão, refúgio da Al Qaeda, e puseram na mira o Irã, rico em petróleo, devido ao programa nuclear do país dos aiatolás.

A cartada decisiva
Esse é o contexto da geopolítica do petróleo, sempre lucrativa à bilionária indústria bélica dos EUA, um dos abre-alas da economia americana. As razões puramente econômicas, porém jogam a cartada decisiva frente aos riscos decorrentes da crise bancária, esta sim ameaça grave para o futuro da última potência imperial do mundo.

A garantia contra choques do petróleo é um bom motivo para Obama apartar quase dois terços para o desenvolvimento de novas energias dentro do programa de US$ 787 bilhões contra a recessão lançado no ano passado. Mas o mesmo objetivo comporta mais de uma intenção.

Geopolítica do verde
Um motivo sutil é que o sucesso dos neocombustíveis condiciona as ambições dos produtores de petróleo, aliados ou não, e cria travas para a especulação em bolsas de commodities. Foram mais as apostas repercutindo a desvalorização do dólar em 2008 que levaram o preço do barril ao recorde de US$ 142 que jogadas da OPEP, o cartel dos países produtores, embora elas fossem parte ainda que involuntária.

Mais energias concorrentes ao petróleo entronizarão ameaças aos produtores, às petroleiras e a quem joga com commodities. Por ora, as novas energias têm custo alto. Mas a maioria é competitiva com o petróleo a US$ 100, numa corrida de custos decrescentes que age em favor dos neocombustíveis à medida que aumenta a escala, afora os subsídios à produção e, eventualmente, ao consumo.

A inovação como arma
Com custo de produção elevado, o petróleo do pré-sal, num quadro como esse, se torna um desafio à Petrobras. Não é improvável que, se os EUA tiverem sucesso, outros países o acompanhem, sobretudo a China, segundo maior importador de petróleo do mundo e que está na cola das pesquisas americanas. O cenário para o álcool de cana-de-açúcar também tem riscos. No programa de Obama, o etanol é tratado como energia de transição até que se viabilizem alternativas não necessariamente mais econômicas, mas Made in USA.

O Brasil está diante de um futuro autônomo em energia, se tiver o cuidado de não subestimar os riscos e considerá-los nas projeções do dispendioso cenário de investimentos da Petrobras. A vida nunca está ganha com a inovação tratada como arma política e econômica.

O pé torto do Brasil
O elo frágil para a consolidação do desenvolvimento no Brasil é o excessivo peso atribuído à exploração de matérias-primas, que hoje são commodities, como o petróleo e até o álcool combustível, e não ao processo tecnológico inerente a tais atividades. Ele é que faz a diferença. Importa menos o etanol como resultado, mas a forma de obtê-lo. Os subprodutos do conhecimento valem mais que o produto ? caso da internet, filha da Guerra Fria, hoje apenas a estrada pela qual transitam as relações econômicas e sociais e as inovações.

A analogia entre a internet e o petróleo do pré-sal é total. Um e outro são meios, não fins. Essa perspectiva está ausente do plano de desenvolvimento do país. A propósito, qual é esse plano?

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