quinta-feira, 27 de maio de 2010

Investimento chinês põe indústria brasileira em risco

 No final da semana que passou foi anunciada a compra da fatia de 40% do campo de Peregrino (bacia de Campos) então pertencente à norueguesa Statoil, pela estatal chinesa Sinochem. O recente ingresso de empresas chinesas no Brasil marca uma nova fase da sua diáspora. Já fortemente presente na África, a consolidação dos chineses como investidores no Brasil torna-os, não apenas os maiores recipientes dos investimentos externos dos demais países, mas fortes players internacionais...


Fonte: Terra

Antonio Corrêa de Lacerda 
De São Paulo
Embora os investimentos diretos chineses no Brasil ainda sejam pequenos relativamente ao outros países investidores chama atenção o seu crescimento. No ano passado atingiram US$ 82,6 milhões, mais de dez vezes o valor investido quatro anos antes. Este ano, só nos primeiros cinco meses já chegam a US$ 3,4 bilhões e devem continuar a crescer!
Ao se internacionalizarem e tornarem-se, como nos exemplos recentes no Brasil, operadoras, as empresas chinesas passam a ter uma participação expressiva no mercado consumidor. Como se trata em geral de empresas estatais, ou, pelo menos, mistas, elas contam, entre outras vantagens tributárias e de financiamento, com o suporte de cerca de US$ 2,5 trilhões de reservas cambiais do pais. A sua estratégia é propiciar via a internacionalização de suas empresas uma maior autonomia no suprimento de matérias primas, energia e alimentos. Adicionalmente, acessam um mercado quase que cativo para seus fornecedores de equipamentos e componentes.
O mundo reclama, atônito, da política cambial de desvalorização do Yuan, o que causa muitos problemas aos demais países, especialmente àqueles, que, como o Brasil, permitiram uma valorização das suas moedas frente ao dólar. Isso dá às empresas chinesas uma competitividade artificial, mas extraordinária, tornando quase que irrelevante as proteções alfandegárias.
O novo cenário só reforça a importância de uma estratégia urgente de industrialização e de inserção externa qualificada da economia brasileira. Para isso, é fundamental uma nova base de políticas macroeconômicas que visem: garantir a sustentabilidade intertemporal das contas públicas; levar a taxa de juros real brasileira à media internacional e; adotar uma política cambial mais ativa. Isso significa não necessariamente abandonar o cambio flutuante, mas torná-lo mais estável em um patamar mais competitivo (leia-se desvalorizado) do que a média dos últimos anos.
No campo das políticas de competitividade (políticas industrial, comercial e de tecnologia/inovação) é preciso melhorar a competitividade sistêmica e apoiar as empresas brasileiras no seu processo de consolidação no mercado brasileiro e de internacionalização, assim como agregar mais valor a partir das filiais das empresas transnacionais aqui instaladas.
O risco da passividade é um processo regressivo da industrialização brasileira e a excessiva dependência de produção e exportação de produtos de baixo valor agregado. Além do mais, um processo conduzido por cadeias globais, sobre as quais não temos suficiente influência nos centros de decisão.
Mas, isso não denota ao Brasil um desfecho determinístico, necessariamente. No século passado tivemos a ousadia, dada pelas circunstâncias, de sair de uma economia primária para uma das mais industrializadas, mediante um claro projeto de desenvolvimento. O século XXI nos impõe o desafio de um novo salto.

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